Entrevista: Ed Oliver

Thiago Silva sempre esteve à frente de projetos envolvendo quadrinhos e a cultura em geral, falar sobre sua contribuição e de seu projeto Chroma para s quadrinhos nacionais seria chover no molhado, mas claro como estamos no Brasil eles ainda carecem de um maior ( e justo) reconhecimento! Sem esmorecer eles continuam firmes no seu propósito e fomos bater um papo com Thiago nesse período em que boas novas surgem no horizonte do Chroma!
1- Primeiramente parabéns pelos 10 anos do Chroma, como ele surgiu e quais suas principais conquistas!
Thiago Silva - Olá! Agradeço pelos parabéns, realmente é motivo de muita comemoração para nós. O Chroma começou em uma sala de aula no bairro do Tatuapé em São Paulo, na turma de desenho da Professora Denise Alliegro na ABRA (Academia Brasileira de Artes), numa iniciativa dos meus amigos Natalia Lhen e Alexandre Garcia que queriam produzir quadrinhos. Na época eu já estava trabalhando no projeto do Bandeirinha, mas tinha a pretensão de fazer um game. Quando o Alexandre me convidou para participar do projeto de quadrinhos com eles, vi a oportunidade de transformar o Bandeirinha em um produto mais rapidamente e logo aceitei o convite! Eu sempre gostei de HQs e já havia produzido alguns fanzines na adolescência, o que também contou para tomar essa decisão.
Ao longo desses dez anos o Chroma fez muita coisa, mas as principais conquistas do time foram o Troféu Ângelo Agostini em 2017 (por mim e pela Thina Curtis, mas ambos os troféus por obras fora do Chroma), a produção da HQ Agente X para a Caixa Econômica Federal, as homenagens que recebemos no Gov Lab Experience e na Exposição Super-Heróis do Brasil e a participação especial de muitos grandes autores do quadrinho nacional e até internacional nas nossas obras Dragão Negro Especial 20 Anos e Legião Secreta.
Também gosto de citar uma conquista que considero mais pessoal: o pôster da Legião Secreta que foi desenhado pelo Mike DeCarlo, o arte finalista dos clássicos Crise nas Infinitas Terras e Morte em Famíla da DC Comics. Afinal, já estamos acostumados a ver artistas brasileiros desenhando heróis americanos, mas não é todo dia que um artista americano desenha heróis brasileiros!
2- Quais trabalhos do Chroma tiveram maior alcance/retorno até o momento?
Thiago Silva - Em termos de retorno financeiro a obra vencedora até o momento é a Dragão Negro Especial 20 Anos, embora não seja a mais vendida (a revista Dragão Negro nº01, lançada em 2014, ainda é a campeã nesse aspecto). Em termos de alcance a melhor até o momento é a Bandeirinha - Os Tesouros da Mãe Terra, que é publicada online gratuitamente no site do Chroma (www.projetochroma.net.br), no meu blog (www.projetochroma.net.br/thiagosilva) e também no RExLab (https://rexlab.ufsc.br), o laboratório online de experimentação remota da UFSC.
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| Legião Secreta por Mike DeCarlo |
3- Vocês agora estão com o projeto "Aliança do Oculto" com autores lusófonos! Fale dele!
Thiago Silva - Sim, Aliança do Oculto é um projeto que está me deixando bastante empolgado! Eu sempre tive um sentimento de respeito e admiração pelos portugueses e angolanos. No caso de Angola em específico, quando estava fazendo graduação na PUC-SP (Em 2001! Estou ficando velho mesmo... rsrsrs) a universidade estava promovendo um intercâmbio com alunos do país africano, e fui ali que tive o primeiro contato com eles. São pessoas muito esforçadas e trabalhadoras. Por isso fico muito feliz e honrado em desenvolver este projeto pioneiro com esses autores!
O projeto da Aliança do Oculto surgiu a partir de uma ideia do Bruno Matos, autor do herói português Lusitano, que já estava participando como convidado especial na Legião Secreta 2 que estamos produzindo. Quando propus a ele fazermos um segundo crossover com a heroína Super Angolana, ele não só gostou da ideia como sugeriu a criação de uma liga de heróis lusófonos.
Nossa intenção era trabalhar nesse projeto futuramente, após produzir Legião Secreta 2. Porém, ao mesmo tempo em que passamos a lidar com a pandemia da COVID-19 eu também passei a ter mais contato com outros heróis e autores de Portugal e Angola. A decisão de acelerar os planos do projeto acabou acontecendo de forma natural.
Atualmente temos seis heróis confirmados do Brasil, Portugal e Angola (além do meu personagem Dragão Negro, que fará um papel de mentor da equipe). Temos também um personagem em processo de criação pelo autor e artista Aires Melo, para representar o Cabo Verde. Quanto aos outros países, estamos tentando localizar autores para se juntar a nós, mas caso não seja possível já temos uma boa equipe criativa para desenvolver esses personagens. Fazemos questão de que todos os países lusófonos sejam representados na HQ! Vocês podem conferir um pouco do projeto no vídeo que fizemos AQUI!
Por hora não vou falar muito sobre a história para não dar spoiler... rsrs... mas já adianto que outros heróis lusófonos e seus autores poderão ser recrutados ao longo do projeto!
4- Você também desenvolve outros projetos de oficinas, fale desse lado do Chroma para nós!
Thiago Silva - O lado social do Chroma surgiu graças a uma grande influência da minha esposa Claudia, que foi integrante da equipe por cinco anos. As oficinas de quadrinhos ministradas pelo Chroma são sempre gratuitas. O material de desenho utilizado é adquirido pelo próprio grupo através das vendas das revistas.
As oficinas destinadas a crianças pequenas têm como objetivo incentivar a criatividade através do lúdico, disponibilizando desenhos e figuras para colorir. As oficinas para adolescentes e adultos, por sua vez, abordam as etapas da produção de uma revista (criação, roteiro e arte) sempre com ênfase no processo criativo.
Ao longo desses de anos nós fizemos oficinas para empresas, escolas e nas Fanzinadas. Porém, esse é apenas um dos trabalhos sociais que fazemos! Nós também realizamos eventualmente o Dia do Gibi Grátis (continuando o legado deixado pela Júpiter II), palestras para escolas e empresas e também o incentivo a estudantes de arte e artistas iniciantes, através das HQs do Dragão Negro, onde procuramos proporcionar a oportunidade para essas pessoas de produzir uma obra completa, agregando valor a seus portfolios e aumentando as chances de realizar mais trabalhos na área dos quadrinhos.
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| Chroma em Santo André/SP |
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| Chroma em Santos/SP |
5- O que você tem lido e acompanhado nos quadrinhos atualmente?
Thiago Silva - Até o ano passado eu estava mais atento aos quadrinhos. Na Internet costumo ler frequentemente as Mentirinhas do Fabio Coala, as charges do Lorde Lobo e as HQs do Escorpião de Prata. Quanto aos impressos, tive contato em 2019 com uma obra chamada Menino Caranguejo do autor Chicolam, que faz um trabalho incrível de conscientização sobre a preservação dos mangues. Outras HQs nacionais que li recentemente e gostei muito foram Eu Sou Lume do PJ Kaiowá e Tina - Respeito da Fefê Torquato. Quanto aos quadrinhos internacionais, volta e meia me pego novamente lendo Vagabond, que na minha opinião é o melhor mangá de todos os tempos.
Desde o começo de 2020 tenho trocado os quadrinhos pelos livros e artigos científicos. Estou fazendo mestrado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pela UFSC. Meu objetivo é desenvolver uma pesquisa sobre o uso de HQs como mídia do conhecimento para leitores surdos. Nos quadrinhos estou atualmente acompanhando a saga do Lusitano e dos heróis angolanos publicados pelo MAC Studios.
6- Que outros personagens nacionais você destacaria?
Thiago Silva - Eu sou bastante suspeito para falar de heróis brasileiros... rsrs... Mas não é segredo que sempre tive uma admiração muito grande pela Jaguara, do Altemar Domingos. A Jaguara foi e ainda hoje é uma grande influência para mim, e me motivou a voltar a publicar o Dragão Negro pelo Chroma (lembra dos fanzines que mencionei lá atrás? O personagem surgiu neles, em 1996). A Jaguara sempre terá um canto especial nas minhas lembranças pois ao longo desses dez anos de Chroma o Altemar e eu também nos tornamos bons amigos, e mesmo agora que estou morando em Florianópolis ainda mantemos contato com frequência.
Outros heróis brasileiros que curto muito são a Penitência do Marcos Franco (por sinal gosto mais da Jaguara e da Penitência do que de qualquer heroína da Marvel e DC), o Flama do Deodato Borges, a Tribo do Junior Cortizo, o Escorpião de Prata do Eloyr Pacheco, o Catalogador do Lancelott Martins, a Nilla Cheng da Michelle Ramos e o Necronauta do Danilo Beyruth, além de praticamente todos os heróis do Chroma, claro!
Porém, os quadrinhos nacionais não são feitos apenas de heróis, então quero aproveitar o espaço e destacar outros personagens que gosto muito: o Monstro, Horo (ambos do Fabio Coala), o Garra Cinzenta (Francisco Armond e Renato Silva), Valente (Vitor Cafaggi), o Menino Caranguejo (Chicolam, já mencionado), os dragões de XDragoon (Felipe Marcantonio), as joaninhas do Pedro Balboni e claro, os eternos Horácio e Tina do Maurício de Sousa.
7- Como foi a experiência de ter feito os roteiros de A Ordem? Aliás o Chroma também tem um projeto com vários heróis não? Fale sobre isso!
Thiago Silva - Trabalhar na produção de Protocolo: A Ordem foi um misto de céu e inferno... rsrsrs... Por um lado, foi um projeto muito gratificante e um sonho realizado. Eu sempre quis ver o Dragão Negro atuando ao lado dos heróis brasileiros que eu gosto, e boa parte deles estava no projeto. Ainda por cima tive a honra de escrever a história e essa foi uma experiência realmente única. O fato de a obra ter aparecido três vezes na revista Mundo dos Super-Heróis e de ter vencido o Troféu Ângelo Agostini torna tudo ainda mais especial. É inegável o fato de que Protocolo: A Ordem foi um marco nas HQs de heróis brasileiros, ao ser a primeira do gênero a ser financiada com sucesso no Catarse e assim abrir as portas para muitos outros projetos que vieram depois. Prova disto é o fato dela ter sido mencionada na edição 098 do podcast Confins do Universo, quatro anos depois do seu lançamento.
Por outro lado, os bastidores da produção me trouxeram uma das experiências mais desgastantes que tive na vida. Muitas brigas internas, disputas de egos e outras coisas que não valem a pena ser mencionadas aqui. Esse é o lado triste, que me fez perder totalmente a vontade de seguir em frente no projeto. Não participei nem da Ordem Suprema (embora minha personagem Ônix esteja no elenco) nem do Alfa: A Primeira Ordem (o qual apenas apoiei no Catarse).
Ao invés disso, optei por criar uma nova equipe de heróis dentro do Chroma. A obra se chama Legião Secreta e foi desenvolvida e produzida em conjunto por todos os integrantes do Chroma, que participam ativamente em diferentes frentes da produção e criam os personagens. Se A Ordem tem sido apontada como os Vingadores brasileiros, pense na Legião como se fossem os X-Men: uma equipe clandestina, que se vira do jeito que pode para vencer os desafios e com membros que precisam constantemente aprender uns com os outros e aceitar diferenças entre si.
Nosso objetivo é produzir uma trilogia, e em cada edição trazer um personagem convidado e abordar a exploração desenfreada de algum recurso natural brasileiro. O volume 01 foi lançado em dezembro de 2017 na CCXP e abordou a extração do Nióbio, relembrando a tragédia ocorrida em 2015 em Mariana/MG. O primeiro livro contou com a participação do Flama, que foi adicionado ao projeto com autorização do Mike Deodato (vale mencionar aqui que ele sempre foi bastante solícito e apoiou o projeto o tempo todo). O volume 02, atualmente em produção, trará como foco a extração de petróleo e o personagem convidado será o herói Lusitano, de Portugal, como já mencionei.
8- Que escritores/roteiristas mais te influenciam como contador de histórias?
Thiago Silva - Eu sempre procuro escrever histórias que agreguem algo na vida dos leitores, que os convide a pensar e refletir. Com base nessa premissa eu sempre procuro aprender ao máximo com as histórias do Maurício de Sousa (em especial do Horácio), do Fabio Coala (já falei muito dele aqui, né? É outro autor que se tornou meu amigo e que admiro bastante) e dos escritores estrangeiros Antoine de Saint-Exupéry e Richard Bach, que são sempre carregadas de muita sensibilidade e de muitas reflexões interessantes e importantes. Outra influência forte é o autor japonês Takehiko Inoue, pela maravilhosa narrativa visual. Quanto aos fundamentos de artes marciais e estratégias de combate tenho como principal influência o famoso samurai Miyamoto Musashi, e no campo científico sou bastante influenciado por Fritjof Capra.
Mas como escrevo muitas HQs de heróis também tenho minhas influências heroicas! As principais são Stan Lee (principalmente pela alta criatividade e pela forte mensagem de respeito à diversidade), Alan Moore (por sempre trazer fortes críticas sociais em suas obras) e Mark Millar (que sempre procura colocar em cheque os grandes feitos dos heróis americanos, criando histórias em que eles fracassam em proteger o mundo ou que passam por sérios conflitos ideológicos). Um roteirista pouco conhecido no Brasil, mas que também me influencia bastante é o Ian Flynn, que há anos escreve as HQs do Sonic no mercado americano.
9- Você tem estado presente em diversas comicons nos últimos anos, qual sua visão sobre elas e o que pode melhorar?
Thiago Silva - Eu particularmente gosto muito das Comic Cons e dos eventos em geral. Para mim enquanto autor, esses eventos têm duas utilidades muito importantes. Primeira, me ajudam a criar vínculo com o público. A maior parte de leitores das HQs do Chroma vieram desses encontros presenciais e depois migraram para as redes sociais (a maioria dos autores que conheço costuma fazer o caminho inverso). O feedback é bem melhor também. Segunda, consigo ter uma visão melhor do que está sendo produzido pelas editoras e por outros autores independentes, o que me ajuda muito a sempre melhorar meu próprio trabalho. Sem falar nas amizades que faço em cada evento, que em sua maioria resultam em parcerias bem legais a longo prazo.
É muito interessante o fato de eu ter marcado presença em eventos de vários tipos de São Paulo entre 2012 e 2017 (Fanzinada, Fest Comix, Feira Plana, Anime Friends, Festival Guia dos Quadrinhos, CCXP, dentre vários outros) e ao mesmo tempo vivenciar a realidade de outras regiões, como Belo Horizonte (participei de duas edições do FIQ) e Florianópolis (onde moro atualmente e já participei da Copa Cosplay, da Comic(con) Floripa e do Circuito Catarinense de Quadrinhos). Isso me permite ter uma visão bem legal de como a evolução do quadrinho nacional vem acontecendo. Cada evento e região são únicos e sempre podem trazer muito aprendizado.
Ao longo dos anos acompanhei de perto a evolução dos autores nacionais, em especial os independentes. O salto de qualidade é muito grande a cada ano e mostra que os quadrinhos nacionais podem sim competir de igual para igual com os estrangeiros se continuarem nessa curva ascendente (muitas HQs lançadas no Brasil nos últimos anos já não devem em nada ao material estrangeiro em termos de qualidade).
A meu ver, acho que o maior problema atualmente nos quadrinhos brasileiros é a dificuldade em levar o material a um público maior. Na minha percepção, se criou um círculo vicioso no qual a maioria dos autores procura apenas produzir quadrinhos para financiar no Catarse e lançar na CCXP. É um bom caminho, mas tem muitas limitações e já está saturado. É necessário olhar para outras formas de produzir e de chegar aos leitores. Acredito que seja o momento de pensar com maior carinho nas HQs digitais (especialmente nesses tempos de pandemia) e para os outros eventos, evitando assim tamanha dependência da CCXP (que é um evento que eu gosto muito, mas mesmo sendo um dos maiores do mundo tem os seus limites). Pequenos eventos regionais podem crescer muito se os autores se engajarem neles também, e quando isso acontece todos saem ganhando!
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| Dragão Negro no traço de Ricardo Jaime |
10- Quais os planos para um futuro próximo do Chroma?
Thiago Silva - Por hora estamos concentrados apenas em continuar os projetos em andamento e remodelar nosso sistema de vendas, uma vez que suspendemos todas as vendas físicas por causa da pandemia. Todos os integrantes do Chroma são do grupo de risco ou vivem com familiares que são do grupo de risco, por isso preservar vidas é a nossa prioridade. Não se pode brincar com a COVID-19. A longo prazo, temos também o objetivo de entrar no mercado europeu.
11- Grato por nos conceder esta entrevista Thiago, sucesso a você e o Chroma e deixe suas conclusões!
Thiago Silva - Eu que agradeço a oportunidade! Não vou me estender muito aqui porque já falei demais. Espero que tenham gostado da entrevista e acompanhem o site do Chroma e as nossas redes sociais para ficarem por dentro das novidades!








Grande trabalho do Thiago e Equipe! O CHROMA é um exemplo de união...
ResponderExcluirMe sinto honrado em poder participar da história do Chroma
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