por: Ed Oliver
Arthur Garcia é um cara que merecidamente tem o título de Mestre do Quadrinho Nacional, pois além de ter influenciado toda uma geração e continuar ativo fazendo trabalhos relevantes, é uma pessoa perseverante e que gosta de trocar experiências e partilhar seu conhecimento. Dono de um trabalho original e personalíssimo numa época em que é regra se clonar estilos, Arthur ainda é farol que ilumina o maravilhoso oceano dos quadrinhos!1- Arthur é um prazer te entrevistar para nosso site já que você é uma grande referência a muitos artistas dos quadrinhos! Você ainda se mantém com a mesma motivação após todos estes anos?
Arthur Garcia- Acredito que ainda sou apaixonado pela linguagem dos quadrinhos do mesmo modo que era aos 17/18 anos quando vi meu primeiro roteiro ser publicado, mas o modo como encaro o mercado obviamente mudou. No inicio, eu era um fã que só queria produzir e ver o meu trabalho aparecer nas bancas, contudo, com o passar dos anos e o surgimento de novas responsabilidades, tive que repensar a aplicação desta paixão e, em alguns momentos, recusar trabalhos de quadrinhos por outros de ilustração mais bem pagos. Acho, no entanto, que este é um preço a ser pago quando se amadurece e começa-se a entender a realidade de um profissional das artes.
2- A edição que trouxe "Pulsar" de volta ficou primorosa, esse trabalho tem muito do tom político que você é preocupado em abordar. Ao reunir este material ficou totalmente satisfeito com essa edição definitiva?
Arthur Garcia- Sou um insatisfeito por natureza, amo tudo que faço quando estou fazendo, mas quando sai publicado, só consigo ver os erros que cometi. Dito isto, PULSAR – edição definitiva só existe por iniciativa do Alexandre Silva, que quis iniciar a sua carreira de editor com esta publicação, e porque eu redescobri, ao coletar os originais, um conjunto de elementos na história que continuavam atuais e do qual já não me recordava, afinal é uma série que produzi nos anos 1990. Acho que todas as virtudes que a edição pode ter vêm do Alexandre que entendeu o espirito do material.
3- Você já trabalhou para inúmeras editoras nestes anos, há algum trabalho em que você fez 100% do que queria do início ao fim?
Arthur Garcia- Deixando de lado a minha insatisfação constante com o meu material, acho que o grande problema dos trabalhos que fiz foi o de nunca conseguir conclui-los, seja devido à interrupção da publicação por uma vendagem insuficiente, seja pelo simples encerramento das atividades da editora. São muitas as séries que ficaram pelo caminho sem conclusão. Mas quando eu penso que um gênio como Jack Kirby também sofreu com isso, percebo que tudo faz parte do caminho...
4- Houve aquele "boom" de artistas sendo agenciados para os americanos, não te interessou ingressar neste tipo de trabalho e qual sua visão dele?
Arthur Garcia- Interesse da minha parte em conseguir um trabalho bem pago sempre houve e há, mas sempre que eu tive que escolher entre um trabalho remunerado e uma série interminável de testes, optei pelo primeiro, pois tinha e tenho uma família para sustentar. Cheguei a fazer uma série de trabalhos para o mercado americano por intermédio do Silvio Spotti que estava em contato com o Magic Eye Studio, entre 2004 e 2005. Foram várias HQs e passatempos para a Disney e outras tantas páginas para editoras pequenas e internet, contudo mesmo esse material começou a pagar menos do que me ofereciam aqui no Brasil.
5- Como roteirista o que te influência? Que tipo de história o Arthur Garcia gosta de contar?
Arthur Garcia- Há muitos anos o saudoso João Pacheco, meu sócio em tantas empreitadas, definiu que toda história que eu escrevia sempre retratava a luta de um individuo ou grupo contra um sistema perverso. Concordei de pronto e tomei a liberdade de acrescentar outras duas características que permeavam e ainda permeiam os meus roteiros: as coisas nunca são o que parecem, e, como disse o Dr. Manhattan, nada nunca acaba.
6- Como foi a experiência de ter feito Mangás e na sua visão o que difere do seu estilo tradicional?
Arthur Garcia- Pertenço à geração que cresceu com os primeiros desenhos japoneses na TV, Cyborg 009, Super-Dínamo, Fantomas, Esquadrão Arco-Íris, etc. assim o interesse pela cultura japonesa era algo antigo, no entanto, só fui trabalhar com mangás por encomenda do estúdio Mercado Editorial em 2000, e em seguida por outras vindas do Franco de Rosa. Deixando de lado as características plásticas mais obvias, creio que o grande diferencial do mangá é o ritmo narrativo que se apresenta muito mais sintético nos quadrinhos ocidentais.
7- Tendo visto muitas mudanças nos cenários editoriais, para você qual o futuro dos quadrinhos?
Arthur Garcia- Recentemente me fizeram esta mesma pergunta e o que vejo no campo das histórias em quadrinhos é um mundo em transformação, pelo quase desaparecimento do mercado de banca e a elitização dos produtos, com uma redução das tiragens e um aumento considerável dos preços. Algumas pessoas apontam o financiamento coletivo como uma opção para a publicação, mas o que tenho visto parece funcionar para produtos já existentes, e não como algo que banque o trabalho dos artistas de modo continuo, criando um mercado de trabalho profissional. Enfim, acho que tenho mais perguntas do que respostas na minha cabeça...
8- Você também e um leitor assíduo de quadrinhos, que trabalhos poderia destacar?
Arthur Garcia- Diferentemente de anos atrás quando eu era um leitor contumaz de tudo o que saia em banca, hoje em dia tenho me limitado a comprar republicações de quadrinhos antigos com trabalhos dos artistas que eu admiro, tais como o Fantasma de Jim Aparo, originalmente publicado pela Charlton Comics no início dos anos 1970, ou Sky Masters com as tiras de Jack Kirby e Wally Wood, mas quando algo gera muito burburinho como O IMORTAL HULK, O RELÓGIO DO JUIZO FINAL, ou X-MEN eu compro e leio para ver do que se trata.
9- Fale um pouco de seu processo de trabalho ao desenhar uma página de HQ?
Arthur Garcia- Se o roteiro não é meu, procuro lê-lo cuidadosamente e rabiscar um pequeno rascunho da página com a diagramação dos quadros no canto da folha. Nesta fase posso decidir adicionar mais algum quadro à página para melhorar a narrativa visual. Em seguida começo a desenhar na página de arte propriamente dita, esboçando as divisões de quadros e as massas de um modo bem livre, sempre com grafite azul em uma lapiseira 0,5 mm. Quando acho que tudo está no lugar, traço os requadros com régua e esquadro e começo a esboçar as figuras e cenários do primeiro quadro ainda em azul, partindo em seguida para a definição do desenho acabado com grafite 2B em uma lapiseira 0,5 mm ou 0,9 mm dependendo do tamanho do desenho. Repito o processo em cada quadro até a página de lápis estar acabada. Raramente faço minha própria arte-final, mas, quando isto acontece, me utilizo de canetas descartáveis.
Dependendo do projeto, posso decidir desenhar em A3 ou A4 e em folhas de papel sulfite de75 g/m² ou em Chambril de 180 g/m².
A HQ “1972”, que aparece em PULSAR – Edição Definitiva, foi esboçada em folhas de sulfite A3 e finalizada com canetas descartáveis sobre papel vegetal.
10- Sendo um artista do modo tradicional, voce se utiliza das novas tecnologias para produção?
Arthur Garcia- Meu desenho continua a ser totalmente “analógico”, com grafite, borracha e tinta, mas faço uso da tecnologia, seja nas minhas incontáveis pesquisas no Google do celular para conseguir referências fotográficas, seja escaneando e tratando o desenho para envio ou mesmo pintando com o Photoshop.
11- Atualmente no que esta trabalhando Arthur?
Arthur Garcia- Este tem sido um ano estranho. Com a pandemia, uma esposa que trabalha em 2 hospitais públicos, duas crianças, uma de 9 anos e outro de 3 anos, ambas em casa devido as escolas estarem fechadas, tive que me desdobrar no papel de pai, professor e babá, acabando por dispensar vários trabalhos pois não tenho condição de cumprir os prazos necessários. Ainda assim, algumas oportunidades têm surgido. Neste momento, estou finalizando o lápis de 10 páginas para um álbum com um personagem antigo das HQs brasileiras, colaboração com o Franco de Rosa que é quem encabeça esta empreitada, escrevendo o roteiro e desenhando as demais páginas.
12- Arthur muito grato pelo seu tempo, espero que tenha ainda mais sucesso e reconhecimento em sua carreira e deixo espaço para suas considerações!
Arthur Garcia- Agradeço o carinho que você tem demonstrado sempre com o meu trabalho e vamos em frente que atrás vem gente! Abração!










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