Se é que você caro leitor de quadrinhos ainda não saiba, Emir Ribeiro fez parte da primeira leva de brasileiros artistas que fizeram quadrinhos para os E.U.A nas grandes Marvel, DC, Image etc.
Sua personagem Velta é símbolo e parâmetro para os quadrinhos nacionais, afora seus inúmeros personagens igualmente trabalhados na qualidade de quem entende do riscado. Não bastasse isso Emir ainda é um grande incentivador e professor para as novas gerações, assim nosso site não poderia deixar de contar com a presença deste Mestre em nossas páginas!
entrevista por: Ed Oliver
1- Prazer em ter você aqui velho amigo! O que tem feito nos ultimos anos em termos de Hqs?
Continuo trabalhando nas minhas edições independentes, tanto nas séries novas como no resgate de antigas histórias que começaram na década de 1970..
2- Para quem não sabe você fez parte da primeira leva de artistas que fez trabalhos para Marvel, Dc, Image naquele boom dos brasileiros nos EUA, qual balanço faz desse período e porque decidiu não fazer mais estes trabalhos?
Emir Ribeiro – Tal como respondi em entrevistas feitas nos anos 1990, só entrei para o mercado estadunidense com um objetivo: ganhar um bom dinheiro e felizmente, ganhei. Trabalhar com aqueles personagens não me realizava profissionalmente.
Os editores eram irascíveis e intragáveis, num nível de chatice que nunca vi antes. Ainda os suportei por treze anos, enquanto armazenava o dinheiro recebido para um objetivo que eu almejava. Depois que atingi a meta pretendida, decidi parar. Meu último trabalho foi para a Marvel, em 2006, e nem o concluí, pois perdi o resquício de paciência que ainda tinha e me recusei a continuar.
A única vantagem desse período, além do bom pagamento, foi que aprendi a ser ainda mais exigente com meu próprio trabalho.
3- Sua criação maior é evidentemente a Velta que é influencia e parâmetro para toda geração posterior, qual sua visão da trajetória dela até aqui? Faria algo diferente?
Emir Ribeiro – A Velta foi um reflexo dos tempos da sua criação. Sem dúvida, um novo começo, sob diferentes condições, produziriam uma personagem diferente. Mas, vejo como válido todo o aprendizado desses quase 50 anos de publicações da personagem.
4- É conhecido que transitamos no gênero super heróis brasileiros, qual sua visão da produção hoje em dia pontos positivos e negativos?
Emir Ribeiro – Nos tempos atuais, estou me restringindo a produzir e me sobra pouquíssimo tempo para ler mais a fundo e analisar criticamente os personagens hoje publicados. Ademais, aprendi com o tempo que cada criador deve ter seu próprio aprendizado, sem interferências externas. Já tentei ajudar algumas pessoas, tentando passar para elas as conclusões tiradas das experiências que tive, mas não houve êxito. Por isso, deixei de comentar, sugerir e aconselhar.
Na minha época de iniciante, procurei absorver todo conhecimento e dicas que me foram passadas pelos grandes mestres com quem tive contato. Hoje, a visão individual é diferente. Por isso, prefiro não interferir e nem opinar.
5- Marvel e DC vivem há décadas um declínio continuo de vendas de suas revistas, qual sua opinião disso?
Emir Ribeiro – Sem dúvida, é um reflexo da baderna e conturbação mental que reina nos tempos atuais, naturalmente transferidos pelos roteiristas para as HQs. Apenas imagino que seja isso, pois, não leio mais essas editoras desde o início da década de 1980, quando a falta de qualidade começou a aflorar. Do mesmo modo, parei de assistir aos filmes e séries que se derivaram dos quadrinhos dessas editoras. O último filme de super-heróis estadunidenses que assisti foi na primeira metade da década de 1990. Os que ainda tentei ver após essa data, me entediaram, não ultrapassei os 20 minutos iniciais de projeção e parei de ver, sem chegar ao fim.
6- Quando escreve qual diferencial você busca mostrar quando trabalha um personagem brasileiro?
Emir Ribeiro – Minha diretriz de trabalho, desde o início sempre foi fazer diferente, preferencialmente o contrário do que é imposto como “tendência” de mercado, desprezando os modismos. Posso não ter conseguido 100% do pretendido, mas, tentei. Por isso, a meu ver, o personagem brasileiro da linha de super-heróis deve ao menos se mostrar como brasileiro, com nome em português, nascido em território nacional, com uso de situações e características do país nos roteiros.
Até a personalidade do herói deve ser mais próxima da do brasileiro típico, sem seguir os padrões já historicamente estabelecidos pelas publicações que vemos há tanto tempo.
7- Você já disse que pouco ou nada vê das produções de cinema e de revistas hoje em dia, quais são suas referências na hora de criar?
Emir Ribeiro – Pode ser difícil de crer, mas, não tenho referências. Primeiramente, meus roteiros sempre foram muito intuitivos. Quando a ideia surgia e eu julgava como uma boa solução para uma trama, a incluía na HQ, sem me importar com influências de filmes ou outros quadrinhos predecessores. O que vi acontecer algumas vezes, ao longo do tempo, foi uma primeira ideia que tive ser vista anos depois em quadrinhos e filmes estrangeiros. E não o afirmo gratuitamente. Minhas antigas publicações, principalmente as de jornais locais, estão devidamente guardadas, datadas e arquivadas, como prova da primazia de algumas dessas concepções. Se alguma dia, algum estudioso for escrever sobre o assunto e pesquisar de verdade, vai se surpreender com as “coincidências” ocorridas.
Fosse o contrário, do artista brasileiro usar uma ideia de um estrangeiro, esse seria crucificado por anos e anos.
8- O que tem lido em termos de quadrinhos nacionais atualmente e quais trabalhos você poderia destacar?
Emir Ribeiro – Conforme respondi antes, não consigo me inteirar completamente das novidades. Cuidar do meu trabalho, sozinho, já toma todo meu tempo. Tenho que me preocupar em criar, escrever, desenhar, montar, mandar imprimir, vender, distribuir, gerir as finanças, responder ao leitores... enfim... faço tudo sozinho, pois, não tenho como pagar ajudantes. Assim, o tempo é todo tomado.
Ademais, ainda há a decisão que adotei de não comentar sobre trabalhos de colegas, especialmente em público. Já não comento em nível privado e pessoal.
Tenho muitos amigos e não quero destacar um ou outro, nem criticar o trabalho ou personagem de um ou de outro. Magoaria as pessoas.
9- Em quadrinhos ainda há algum trabalho que voce tenha vontade de fazer fora de seu estilo usual de quadrinhos?
Emir Ribeiro – Há uns poucos anos atrás fiz, profissionalmente, duas HQs infantis, mas, foi um esforço enorme sair da linha habitual de trabalho.
Dentro do estilo realista, já pensei em explorar um pouco mais o terror. Bem... mas, isso e já fiz com minha personagem “Michèlle, a vampira”.
10- Qual o futuro para a Velta?
Emir Ribeiro – Enquanto houver leitores para ela, continuarei publicando e tentando apresentar novidades, dentro dos seus roteiros.
11- Você aderiu a algumas das tecnologias atuais na hora de produzir ou você ainda prefere o metodo tradicional?
Emir Ribeiro – Sou péssimo em informática e celulares. Só tenho conhecimento do básico do básico. Por isso, meus quadrinhos são feitos como antigamente, com papel, lápis, canetas, tintas e pincéis. Porém, já aprendi a fazer um acabamento e letreiramento digital (a duras penas, diga-se de passagem).
12- Qual sua opinião sobre quadrinhos digitais?
Emir Ribeiro – Sempre preferi os impressos, pois, podem ser lidos em qualquer local e sem necessidade de energia elétrica. Mas, forçosamente, parece que não escaparemos de migrar em definitivo para os quadrinhos digitais.
Em termos de armazenamento, os digitais cabem em espaços bem menores.
Atualmente, estou com problemas de guardar edições impressas em casa. Quase não há mais lugar disponível para ser ocupado. Dentro de algum tempo, terei que me desfazer de muitas delas para dar lugar às minhas próprias.
13- Emir grato pela honra de nos dar essa entrevista, espaço aberto para suas palavras!
Emir Ribeiro – Eu que agradeço a você por mais essa oportunidade de falar um pouco com os leitores e amigos sobre um assunto que aprecio desde criança.
Email: emir.ribeiro@gmail.com











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