Olá Gabriel, o Lagarto Negro é dos heróis nacionais que mais se faz presente em HQ´s produzidas em nosso país, você tem concentrado grande esforço para a divulgação dele, fale um pouco sobre a criação dele como se deu, influências, etc.
Gabriel Rocha: Olá Ed Oliver, quero iniciar agradecendo ao uso da palavra, pois são estas entrevistas sempre uma grande oportunidade para divulgação dos nossos trabalhos com os quadrinhos!
Não me esquivo da verdade de que desisti do Lagarto Negro em 2000, logo após ter tido alguns dissabores com a aventura que foi publicar a revista de vida muito curta chamada Impacto Fabricado no Brasil. De fato, ainda em 2002 eu recebia cartas e e-mails de leitores perguntando sobre o personagem e decidi manter uma página na internet reunindo todas as informações sobre o personagem para atender a essas pessoas. Foi quando eu comecei a perceber que o personagem tinha vida própria e, de certa forma, independia de mim.
O amigo Rod Gonzales tem uma teoria muito interessante sobre isso. Ele afirma, e eu gosto dessa teoria, que alguns personagens atendem a certos arquétipos universais e realmente possuem vida própria e encontram seus meios para existir. Não sou um bom administrador e o personagem sobreviveu à minha desistência encontrando algum afeto no coração de outros autores, que foram pedindo pelo personagem em seus trabalhos. Eu apenas o deixei ir. O Lagarto Negro partiu, então, para sua grande aventura e isso é muito legal.
Sempre gostei de ler quadrinhos de gêneros variados, humor, fumetti, mangá, mas acredito que nenhum gênero se ramifique tanto quanto o gênero dos super-heróis. Uma das ramificações mais interessantes sempre foi a dos super-heróis brasileiros. Hoje é muito fácil encontrar informações sobre estes personagens nacionais, mas antes da rede mundial de computadores eles eram ocultos. Eu já conhecia o Fantasma Negro, mas foi quando li o Vingador Mascarado, do Sebastião Seabra, que percebi que era viável ler super-heróis brasileiros sem distinção do que vinha sendo maciça e sistematicamente sendo importado para a publicação no Brasil. Acho que essas foram minhas influências.
Aliás você é daqueles autores que prefere criar poucos personagens e se concentrar mais na sua divulgação o que acho algo inteligente do ponto de vista editorial, o que tem feito o Lagarto Negro alcançar outras mídias, fale um pouco disso!
Gabriel Rocha: Na verdade, criei vários personagens. Antes do Lagarto Negro, publiquei quadrinhos em parceria com um amigo do colégio, o Fred Pires, num jornal de bairro. Chama-se O Vingador. Publiquei um “Thor”, em outro jornal de bairro, com um nome mais correto: Donar, o Deus do trovão. O Metatron, que saiu num “zine” com tiragem de três mil exemplares e distribuição gratuita. O Lagarto Negro surgiu após críticas de leitores do “zine” Impacto com a HQ do Metatron. Fui distribuir a publicação gratuita num evento de quadrinhos no Castelinho do Flamengo, e ouvindo a opinião dos leitores pude perceber o que eles estavam realmente aceitando como “real” para um “super-herói brasileiro”. Eliminei os poderes do Metatron, mudei um pouco o uniforme, e então tive que buscar por um nome para ele (acho que estou ainda respondendo à pergunta anterior, rsrsrs.
Na verdade, o convite para alcançar outras mídias surgiu dos outros envolvidos.
O projetista de jogos eletrônicos Adilton Ribeiro teve a iniciativa de concretizar o game do Lagarto Negro (que pode ser encontrado na página do Google Play AQUI!
O Carlos (Cadu) Macedo, do Amálgama Estúdio, também fez o convite para que surgisse um desenho animado do Lagarto Negro em 3D que pode ser encontrado no You Tube AQUI!
Recentemente conseguimos aprovação num edital cultural com esse trabalho de animação, e estamos aguardando os acertos finais com o órgão responsável. A parceria com o Cadu é bacana e estamos elaborando uma série de quadrinhos também.
O personagem está presente em alguns card games com o tema “super-heróis brasileiros”. Mas, é como eu disse antes, não cavo essas iniciativas que são mérito dos demais envolvidos.
Tivemos a oportunidade de enfrentar e vivenciar juntos desde a época do falecido Orkut o grande preconceito e injustificável ódio de certos setores contra os SHB (super-heróis brasileiros), na sua opinião a que se deve isso, e de sua perspectiva como estão as coisas hoje?
R.: Ed, acredito que seja uma questão de falta de informação, pois sempre dizem que o preconceito nasce da ignorância. Vejo a internet como meio de divulgação de informações e ferramenta muito adequada para solucionar a questão. Hoje é muito mais fácil angariar boa divulgação e os autores brasileiros do gênero dos super-heróis nacionais estão pulando para fora do seu gueto e desenvolvendo o nicho de formas cada vez mais interessantes. Participei de algumas experiências de divulgação de trabalhos de autores nacionais e descobri que existem cerca de dois lançamentos de novas HQs independentes por dia. Isso é bastante coisa. É natural que haja diferentes graus de qualidade em uma produção tão extensa, mas muitos dos profissionais da área surgiram com trabalhos muito amadores e foram evoluindo suas técnicas conforme iam produzindo novos trabalhos. Assim, é sempre interessante estimular a produção do autor iniciante, no lugar de tentar impedi-lo de produzir.
Infelizmente ainda percebo muita deslealdade em certos círculos de autores. Ainda há aqueles que pensam que seus trabalhos vão se desenvolver mais quando depreciarem outros nichos. É muito comum com os autores que, de forma infame, acreditam produzir “quadrinho europeu”. Como se fosse possível para um residente da América do Sul produzir quadrinho europeu. Quadrinho europeu produz quem vive na Europa, certo? O Lagarto Negro tem sido roteirizado e ilustrado por europeus, lá mesmo, na Europa, então, é certo dizer que estou mais envolvido com a produção de quadrinhos europeus do que muitos dos fanáticos depreciadores do gênero ao qual nossos heróis pertencem. Repare, Ed, que quem faz mangá, western, ou outros gêneros, não se encontram em tal arrogância, pois não afirmam fazer quadrinhos japoneses ou norte-americanos. Não existe “quadrinho europeu” nascido abaixo do Equador, ainda mais de autores que não publicam no velho continente. Verdade ou mentira?! Deviam deixar de chamar de “aloprados” os autores que estão envolvidos com o bom desenvolvimento de seus próprios trabalhos e estudar mais a arte ou a linguagem que pretendem emular, ainda sem muito sucesso comercial. Os autores bem-sucedidos neste nicho, que certamente merece outro nome, se dizem apenas autorais e não fazem o tal “stalking hater” contra quem quer que seja. Não é assim que se ganha espaço. Já perdi, irrevogavelmente, o respeito por um punhado de autores cariocas, aos quais considero pequenos, sobretudo em mentalidade.
O que você pensa que são pontos a serem usados e pontos a serem evitados para a criação de um personagem nesse estilo pelos novos autores?
Gabriel Rocha: Não sou bom em ditar regras, mas todos temos nossos gostos pessoais. Não aprecio muito super-heróis com nome em inglês. Soa falso. Fica muito estranho também o autor escolher algum nome que já está em uso para sua criação. Denota pouca criatividade. De resto, você não faz um trabalho dentro de um gênero sem seguir certos parâmetros dele.
Destaque alguns trabalhos do que gosta e tem visto dentro das HQs!
Gabriel Rocha: Recentemente adquiri um mangá chamado Oxente. Ainda estou lendo, e é divertido. Recebi o segundo volume da Alfa, e gostei muito da edição bem apresentada pela Editora Kimera. Uma boa surpresa foi receber de presente o álbum da personagem Sanguinária, do Reginaldo Carlota. Estou com algumas revistas mais antigas na fila de leitura agora, com trabalhos do Watson Portela, Mozart Couto, Deodato, Flavio Colin e outros.
Além do Lagarto, há algum outro projeto seu ou que você esteja envolvido?
Gabriel Rocha: Sim, tenho feitos cores para alguns projetos sem o Lagarto Negro. Estou deliberadamente enrolando o Elenildo Lopes para entregar duas páginas de desenho com origem do Capitão RED (faço isso para dar tempo de outros autores aprontarem suas páginas em andamento para a edição digital da Alfa Origens). Ele está ficando chateado comigo, então vou ter que terminar isso antes da vacina do Covid-19 surgir...
Estou elaborando uma antologia de quadrinhos independentes do gênero dos super-heróis nacionais, em parceria com a Editora Kimera. Já recebi umas vinte HQs, todas muito boas! Você está dentro!!
O Lagarto Negro tem alçado alguns voos internacionais! Parabéns e fale um pouco a respeito disso pra gente!
Gabriel Rocha: É bem bacana. O personagem participou do primeiro grande encontro de super-heróis de países da América Latina. Trata-se de uma iniciativa da editora argentina UMC Ediciones (https://umccomics.com/). Além do personagem anfitrião, o argentino Sol de Plata, estão também presentes os personagens sul-americanos convidados: Descomunal (PERU), criação de Franz Mitchell Producciones; Fiero de Universo Fuerza PG (PARAGUAI), criação de Gustavo Raúl Ferreira Patiño; Espinas de Universo Mirox (CHILE), criação de Rodrigo Roa Salinas; e o brasileiro Lagarto Negro. Trata-se de uma HQ histórica, por romper as fronteiras nacionais e o editor John Curcio está de parabéns pela grande iniciativa!
Estou tratando para que a editora Kimera se interesse em publicar esse material, mas o novo coronavírus tem sido entrave para os projetos de 2020.
Já a Yamraj Comics é uma produtora francesa de quadrinhos. Eles estão terminando a produção de uma super aventura com super-heróis brasileiros e europeus interagindo em uma única aventura. Também pretendo convencer a Kimera a abraçar o projeto no Brasil. Quem quiser ajudar, é só encher a caixa de correios da Kimera com pedidos: editorakimera@gmail.com.
Na sua visão, qual o panorama para um futuro próximo dos quadrinhos?
Gabriel Rocha: No Brasil, existe uma certa aversão contra a leitura. Não devemos pensar em vender mais quadrinhos sem antes pensar em um estímulo à leitura que seja eficaz. Infelizmente, no Brasil, no lugar de buscar alimentar o estímulo à leitura, o que vejo é uma ação generalizada para depreciar certos nichos, como se destruir o prazer na leitura dos outros fosse edificar algum crescimento de público para o hater.
Como observei anteriormente, a produção hoje é muito ampla. É necessário fazer com que essa produção encontre público. Isso só vai acontecer quando a leitura chegar para quem não tem o hábito de ler, e não agredindo os poucos que desenvolveram o hábito da leitura com discursos de ódio absolutamente infames. Os caras rasgam gibis de coleções em bibliotecas que eles não querem que seja lido (isso é real, aconteceu mesmo), mas não são capazes de lavar alguém para ler um texto que seja na mesma biblioteca. Não há inteligência em ações deste tipo. Surgiu uma militância contraproducente. Quem trabalha num sentido oposto tem conseguido desbravar novos caminhos.
Gabriel você é um exemplo de força e perseverança nas HQs, grato pelo seu tempo e fique à vontade para suas considerações finais!
Gabriel Rocha: Não é verdade. Eu desisti em 2000. Quem persevera são os leitores do personagem. Existem, no momento, mais dois games com a participação do Lagarto Negro em produção, nenhum deles por iniciativa minha. Essa é a verdade. O Rod deve ter razão.
Contatos:
★Entrevista por: Ed Oliver







ótima entrevista!!o Gabriel é uma grande engrenagem dos quadrinhos nacionais , parabéns ao site!!
ResponderExcluirGabriel Rocha criou de fato um Herói brazuca com muita personalidade! Lagarto Negro é um Show dentro da nossa nona Arte e o ator merece todos os Aplausos e elogios pela sua maravilhosa Obra!
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